Modelos de Comunicação

Depois de alguns problemas técnicos e afins, eis que finalmente terminei o trabalho de modelos da comunicação. Para comemorar, deixo-vos a versão integral naquele que será o maior post que alguma vez realizei.

 

Todas as ciências sociais carecem de exactidão. Ao contrário da física, da química ou da matemática, ciências que, à partida, possuem resultados fixos para um dado problema, as ciências sociais são afectadas pelo elemento humano. Somos seres imprevisíveis, carregados de emoções, com a capacidade de escolha. Como tal, não podemos encontrar uma solução exacta para os fenómenos que ocorrem na Sociologia, na Pedagogia, na Economia ou na Comunicação. Os teóricos destas áreas, para suprimirem essa lacuna das ciências sociais, criaram modelos. Não sendo aplicáveis a 100% dos seres humanos, os modelos procuram simplificar uma realidade, focando os principais elementos dos diversos processos e estruturas humanas e as suas relações para que se torne, desta forma, possível o estudo dos fenómenos sociais.

      Quanto aos Modelos de Comunicação, existem quatro grupos principais: os Modelos de Base Linear, os Modelos de Base Cibernética, os Modelos de Comunicação de Massas e os Modelos Socioculturais.

Modelo de Base Linear

      Este tipo de modelo tem uma grande relação com o Modelo de Comunicação de Massas por duas razões: os modelos iniciais explicavam as ditaduras europeias recorrendo aos mass media e os verdadeiros Modelos de Comunicação de Massas foram criados, inicialmente, como refutação destes modelos.

      O modelo de base linear mais conhecido foi criado por Harold Lassewell, tendo sido uma evolução da Teoria Hipodérmica. Esta teoria foi criada no período em que homens como Hitler e Mussolini chegaram ao poder na Europa. Com esta teoria nasceu, também, o termo sociedade de massa. Apoiada na Psicologia Behaviorista, esta teoria diz que uma mensagem, após recepcionada pelo público, é completamente absorvida – daí ter ganho a alcunha Teoria da Bala Mágica (Bullet Theory).

      Lassewell, desdobra o acto comunicacional em cinco perguntas: quem comunica? (emissor), o que diz? (mensagem), por que canal? (meio), a quem diz? (receptor) e com que efeito? (efeito). Apesar das suas inovações, este modelo apoiava-se, implicitamente, no pressuposto da Bala Mágica segundo o qual a iniciativa pertence apenas ao emissor e os efeitos apenas se fazem sentir no público. Tal como a teoria em que se inspirou, o Modelo de Lassewell implica três premissas fundamentais: os processos são assimétricos (o emissor produz um estímulo e a massa passiva, ao recebe-lo, reage); a comunicação é intencional e tem o objectivo de obter um determinado efeito observável; independentemente das relações sociais, culturais e situacionais, o comunicador e o(s) destinatário(s) têm papeis isolados.

      Quase em simultâneo com este modelo, foram apresentados outros modelos de base linear. Shannon e Weaver, partilham um modelo (criado pelo primeiro, mas alargado a outros campos pelo segundo) essencialmente matemático que permitia medir, cientificamente, a informação.

      Neste modelo, Shannon e Weaver mantêm os cinco campos de estudo de Lassewell, substituindo a Mensagem pelo Transmissor (o qual transforma a mensagem em sinal que pode ser transmitido pelo canal), o Efeito pelo Destino (ponto de chegada da mensagem, quer seja uma pessoa ou uma máquina) e acrescentando a Fonte de Ruídos (inicialmente aplicado, apenas, aos ruídos que afectavam directamente o canal). De referir, também, que o Receptor tem, aqui, um papel diferente: descodifica a mensagem (ao contrário do Transmissor) para que possa ser compreendido pelo destinatário.

      Apesar desta Teoria Matemática da Comunicação ter sido bastante criticada por negligenciar a interacção com o receptor, o papel das redes de comunicação e a componente semântica das mensagens, este é um modelo que continua, com algumas alterações, a ser aplicado em diversos estudos comunicativos. Isto porque, apesar das suas falhas, este processo aplica-se a diversos fenómenos comunicacionais, seja um processo entre duas máquinas, dois seres humanos ou uma máquina e um ser humano.

Modelos de Base Cibernética

      Também conhecidos por Modelos de Base Circular, estes são os modelos que integram o feedback ou a retroacção como elementos reguladores da circularidade da informação e apoiam-se nos desenvolvimentos do campo da cibernética, protagonizados por Norber Wiener.

      Começando pelos modelos de comunicação interpessoal, estes baseiam-se na comunicação face-a-face. São modelos que, na sua génese, consideram um emissor que envia uma mensagem que após sofrer o efeito de barreiras (físicas, culturais, semânticas, etc.) vai chegar ao receptor. Este, por sua vez, envia o seu feedback, o qual vai sofrer o efeito das mesmas barreiras da mensagem inicial.

      O Modelo de Comunicação Interpessoal de Schramm, traz importantes modificações aos modelos lineares, servindo não só para descrever o fenómeno das comunicações interpessoais, como também as comunicações de massas. Schramm alarga os conceitos de codificação e descodificação, ao focar que se trata não de um processo técnico, mas de um meio que o homem tem à sua disposição para comunicar por via de signos, os quais ocupam o lugar de uma experiência. Schramm dota emissor e receptor tanto da capacidade de codificar como da capacidade de descodificar, tornando a comunicação num processo interminável em que há uma constante troca de experiências pessoais, sendo cada ser humano uma central de retransmissão. Mais ainda, este modelo considera a comunicação não verbal, a qual vai possibilitar que os intervenientes corrijam, constantemente, as suas próprias mensagens.

      Já o Modelo Circular de Jean Cloutier, assenta na linguagem áudio-scripto-visual. Este modelo está patente numa das suas obras, em que este autor usa bastante a palavra EMEREC, palavra que significa o indivíduo que recebe e emite informação, ou seja, o homo communicans. Por outro lado, o autor considera que mensagem e linguagem são um todo indissociável, considerando mesmo que a linguagem permite encarnar a mensagem. Finalmente, temos o Medium, o intermediário que transporta a mensagem no espaço e no tempo e que pode significar tanto o canal usado como os instrumentos que permitem utilizar esse canal, ou seja, por exemplo, tanto as ondas de rádio como o emissor radiofónico. Cloutier representa o Medium pela sua dupla face: receptor e emissor de mensagens.

Modelos de Comunicação de Massas

      Tendo nascido da evolução das Teorias Lineares, os Modelos de Comunicação de Massas podem ser considerados Cibernéticos, visto que contemplam sempre o feedback como elemento regulador da comunicação.

      Gerbner apresentou o seu modelo em 1956, é um modelo inovador pelo facto de se alterar de acordo com a situação comunicacional que representa. O modelo baseia-se em diversos “blocos”, os quais podem ser utilizados para descrever desde processos simples, até processos complexos, permitindo assim o estudo de diversos tipos de fenómenos.

      Já no Modelo de Comunicação de Massas de Schramm, adapta o seu modelo de comunicação interpessoal, tornando o emissor numa entidade colectiva, na qual junta o organismo que emite a informação e os mediadores. As operações de codificação, descodificação e interpretação são realizadas por um conjunto de especialistas que utilizam fontes exteriores e têm em conta o feedback. Num jornal, por exemplo, os jornalistas recolhem informações, mas na construção das notícias também têm em conta se notícias anteriores aumentaram ou reduziram a tiragem.

      O Modelo do Processo de Comunicação de Massas, de Maletzke, constitui um bom exemplo académico do estudo da comunicação de massas, visto que toma em consideração as implicações sóciopsicológicas no estudo deste fenómeno. Para além dos elementos, já bem conhecidos, Comunicador, Mensagem, Meio e Receptor, o autor acrescenta o constrangimento causado pelo meio e a imagem que o receptor tem desse mesmo meio. Ou seja, o quotidiano do receptor é influenciado pelas características, ideologias e conteúdos do meio – pressão causada pelo meio – e vais escolher os conteúdos que recepciona de acordo com a imagem que tem do meio.

Modelos Socioculturais e Culturológicos

      Esta perspectiva analisa a cultura de massas e as suas repercussões na sociedade. São modelos que analisam não tanto os meios de comunicação de massas, mas principalmente as vertentes cultural e social que esta modalidade de comunicação criou. Sendo uma vertente de estudo seguida, principalmente, na França, não admira que sejam franceses os autores aqui tratados.

      No Modelo Cultural de Edgar Morin, o autor apresenta a cultura de massas como uma cultura industrial. Ou seja, vê a cultura de massas como o resultado de uma política de produção-consumo. Este autor contrapõe a lógica industrial, a da estandardização, à contra-lógica do individualismo, a da inovação. Existe, por um lado, um padrão de produção, que vai beneficiar dos sucessos passados semelhantes, e por outro a originalidade que garante novos sucessos. Morin refere três elementos: a Criação e a Produção que terão triunfam se derem respostas eficazes às necessidades individuais, algo que as levará ao Consumo por parte do público.

         O Modelo Cultural de Abraham Moles traz uma perspectiva mais cibernética a este tipo de modelos. Moles considera os criadores como aquele que age, que produz novas ideias e que, portanto, emite mais mensagens do que as que recebe. A sua acção vai atingir primeiro o seu micro-meio, um subconjunto da sociedade composto por especialistas ou por pessoas que partilham os mesmos gostos. Logo, as criações vão alterar, até certo ponto, os micro-meios de forma imediata. Aqui, são postas à experiência e só depois têm a possibilidade de circular para o público geral através dos mass-media. Existe, desta forma, uma interacção permanente entre a cultura e o meio a que ela respeita, pela mão dos criadores que provocam uma evolução. Esta interacção é a sociodinâmica da cultura. Igualmente importante para esta sociodinâmica é a aceitação das novas obras e produtos por parte dos mass media. Esta aceitação transforma-os em produtos culturais semelhantes aos outros produtos de consumo, recomeçando o ciclo. Cada ciclo será igual, alterando-se, apenas, a velocidade de circulação das ideias. 

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